Meditações

Obesidade espiritual (lições de fé que a dieta me ensinou)

Por Maurício Zágari

Uma dieta para fugir da obesidade espiritual, mantenha saudável seu relacionamento com Deus e com o próximo.

Tá, eu sei, falar de consequências espirituais de dietas alimentares soa muito esquisito, mas, acredite, elas existem. Permita-me explicar. Nunca na minha vida precisei emagrecer. Até meus 27 anos eu pesava 55 quilos, o que é muito pouco para um cara de 1,80m. Sim, eu era magérrimo. Isso teve uma consequência: nunca, por muitos e muitos anos, tive de cuidar da alimentação nem evitar este ou aquele alimento. Por isso, quando cheguei aos 27 anos e meu código genético decidiu que era hora de iniciar um processo de engorda natural da idade, comecei a ganhar peso e acumulei, pouco a pouco, nada menos que 35 quilos. Assim, cheguei a agosto de 2018 com 90 quilos e uma barriga de melancia.

O problema não era só estético: meu exame de sangue acusou um monte de taxas acima do limite ideal, como triglicerídeos, colesterol e glicose. Oito anos antes eu tinha recebido o diagnóstico de hipertensão e me tornado dependente de dois comprimidos diários a fim de tentar controlar a pressão. Era nessa situação difícil que eu estava em agosto de 2018, cinco meses atrás. O que aconteceu em seguida teve um impacto grande não só na minha saúde física, mas nas minhas reflexões espirituais.

Eu já vinha incomodado com minha barriga havia um bom tempo. Mas dois episódios foram a gota d’água. Primeiro, eu estava de férias e, ao tentar descer numa tirolesa com minha filha, fui impedido pelos responsáveis porque o equipamento não suportava pessoas com 90 quilos. Foi chato e humilhante. Além disso, em setembro fui obrigado a, durante a pregação em uma igreja, pedir licença aos irmãos para, no púlpito, afrouxar um furo no cinto de minha calça, pois doía de tão apertado e eu não conseguia me concentrar no que estava pregando. Foi vexaminoso. Fui, então, ao cardiologista e ele me meteu medo. Disse que, se eu não tomasse uma atitude, em pouco tempo as consequências poderiam ser bem ruins. Foi quando tudo começou a mudar.

Tive de tomar a decisão de fazer o que eu sozinho não sabia fazer pelo puro ineditismo da coisa: mudar a alimentação e perder peso. Por isso, procurei quem entende da coisa e marquei uma consulta com a nutricionista. Ela estabeleceu como meta 78 quilos (uma perda de 12 quilos, o que, para quem nunca tivera de perder peso na vida, era um monte Everest) e me receitou reeducação alimentar.

Eu parei, pensei e tomei a decisão de seguir rigorosamente aquela estranha mudança. Expliquei para a família. Fiz listas de compras. Ajustei alarmes para me lembrar de comer em horários inéditos para mim. E, a partir de 2 de outubro de 2018, comecei a nova alimentação, sendo extremamente radical, comendo verde quando todo mundo comia pizza e saboreando cenoura e tomate com frango grelhado num Natal cercado de rabanadas e chocolates.  Mas consegui ser fiel ao meu propósito, apesar das não poucas tentações.

Vou resumir o que aconteceu. Três meses depois, voltei ao cardiologista. Os resultados foram assombrosos. Meu peso caiu de 90 para 76 quilos, 2 kg além da meta de 78. Minhas pressão, sem medicamentos já há quase dois meses, tem oscilado entre 10 por 7 e 11 por 7, normalíssima. A barriga desapareceu completamente, voltei a usar minhas roupas antigas, meu rosto afinou e me sinto mais leve. O exame de sangue mostrou que todas as minhas taxas estão excelentes, normalizadas. A de triglicerídios, por exemplo, caiu nada menos que pela metade. O que o cardiologista me disse após ver todos os resultados e me examinar resume tudo: “Você está com uma saúde de garotão. Esses três meses de autocontrole e seriedade lhe garantiram alguns anos mais de vida”. Claro que, teologicamente, é uma afirmação questionável, mas deu para entender o que ele quis dizer.

Meu irmão, minha irmã, por que estou compartilhando isso com você? Para contar-lhe as reflexões espirituais que esse processo provocou, na esperança de que contribuam com a sua jornada. Vamos a elas:

  1. É importante traçar metas e definir claramente como chegar lá. Saber que eu queria chegar aos 78 quilos me ajudou a ter determinação e motivação. Eu tinha um alvo a ser alcançado. Do mesmo modo, na vida espiritual é interessante estabelecermos alvos. Assim, por exemplo, se você ainda não conhece direito a Bíblia, decida ler o texto da Escritura em, digamos, um ano e separe um momento do dia para a leitura. Se sente carência de conhecimentos teológicos, tome a decisão de cursar um seminário e leve o estudo a sério. Se precisa se santificar em alguma área da vida, tenha por claro o que precisa fazer e estabeleça as estratégias para isso. Portanto, veja onde quer chegar, planeje o trajeto para chegar lá e faça o que for preciso.
  2. Não abra exceções. Uma das maiores pragas de uma dieta alimentar são as exceções. “Ah, só hoje”, “Não vai ter problema comer só um pouquinho disso”, “Na segunda-feira eu retomo” e sabotagens semelhantes só destroem seu propósito. Se você traçou uma meta, não barganhe “poréns” consigo mesmo: seja rígido, rigoroso e inflexível. Do mesmo modo, na vida espiritual é importante não negociar o inegociável. Se você sabe, por exemplo, que estar com determinada pessoa vai levá-lo a pecar, corte o contato. Se você percebe que estar em determinado ambiente prejudica sua saúde espiritual, nunca mais apareça lá. E assim por diante.
  3. Dificulte seu acesso às tentações. É muito mais fácil não comer chocolate se você não tem chocolate em casa. Percebi claramente que a reeducação alimentar não começa na geladeira, mas no supermercado. Se você comprar aquele alimento que ama mas não pode comer, é muito mais fácil ceder à tentação se ele estiver ao alcance da mão do que se tiver de ir à rua comprá-lo. Portanto, mantenha aquilo que sabota sua dieta o mais longe possível do seu alcance. Do mesmo modo, na vida espiritual você precisa identificar quais são suas maiores tentações e organizar, racionalmente, estratégias para não ter por perto o que pode levá-lo a pecar. É mais fácil não roubar se você não tem acesso ao dinheiro. É mais fácil não ver pornografia se você não tem um computador no quarto e uma chave na porta. É mais fácil não invejar o próximo se não ficar toda hora correndo a timeline de seu Facebook. É mais fácil não cobiçar a mulher do próximo se você não mantém contato com ela. E assim por diante.
  4. Não deixe que fracassos pontuais o façam desistir. É possível – embora não desejável – que você escorregue. Se você vacilou e comeu aquele bombom ou aquela fatia de pão, sacuda a poeira e retome de onde caiu. É incomparavelmente pior desistir do que dar um passo atrás e depois seguir caminhando para frente. Do mesmo modo, na vida espiritual quedas ocorrem. Se elas acontecerem, não desista, não se sinta sujo, não entregue os pontos, não se veja como um fracassado, não acredite na mentira de que Deus desistiu de você. O perdão está ao seu alcance, desde que você se arrependa, confesse seu pecado e abandone o que o levou à queda. Busque ao Senhor em arrependimento, receba o perdão dele e siga em paz.
  5. Valorize o que você vai ganhar e não o que você está perdendo. Não é fácil abrir mão daquela deliciosa pizza de chocolate com banana quando os amigos vão jantar na sua casa, todos comem essa delícia, o cheiro te desmonta… e você está comendo salada com frango grelhado. Porém, se você mantém a mente focada no fato de que você está passando por isso temporariamente para obter um benefício extremamente mais valioso dali a um tempo, tudo fica mais fácil (eu disse mais fácil, não estou dizendo que é fácil). Do mesmo modo, na vida espiritual você saber que o prêmio mais à frente fará tudo valer a pena deve ser um pensamento cristalizado em sua mente. O peso de glória na eternidade é maior que todas as tribulações desta vida. O galardão da fidelidade é a presença eterna do amor de Deus, e nada, nada, nada é melhor do que isso, mesmo que cheire bem, tenha um gosto delicioso e todo mundo esteja consumindo. Entendeu?
  6. Cuidado com os sabotadores. Frequentemente, quando você faz uma dieta com restrições, chega alguém para lhe oferecer um doce, dizer que um só bombom não fará diferença, que comer porções maiores do que a nutricionista recomendou não tem problema algum, coisas assim. Esses bem-intencionados sabotadores são terríveis, pois, em geral, eles conseguem nos arrastar para fazer o que não devíamos. Do mesmo modo, na vida espiritual os maiores erros que podemos cometer ocorrem sob a influência de pessoas. As famosas “más companhias” têm uma capacidade enorme de nos fazer crer em falsas doutrinas, nos afastar do caminho da piedade, priorizar o que é menos importante. Cuidado com quem você escolhe como influência espiritual. Cercar-se de gente que contribua com o seu avanço e que não o ancore ou faça retroceder é muito importante.
  7. Exerça o domínio próprio. Sem ele, você não perde um grama sequer de peso. Essa virtude do fruto do Espírito é, em outras palavras, a capacidade de dizer “não” quando todas as fibras do seu ser querem dizer “sim”. É comer o que precisa quando todos ao seu redor estão comendo o que você quer. É fechar a boca enquanto saliva de vontade. É saber ir embora quando seu estômago implora que fique. Do mesmo modo, na vida espiritual, o domínio próprio – ou autocontrole, como eu prefiro chamar – é essencial para uma vida de santidade e obediência a Deus. Saber dizer “não” quando seus hormônios dizem “sim”, conseguir ir quando sua carne quer ficar, dedicar-se às disciplinas espirituais quando a preguiça te leva à TV, não abrir mão da sua rotina de leitura bíblica e oração quando seu sono pede cama… tudo isso só é possível graças ao domínio próprio. Ponha-o em ação.
  8. Pare de dar desculpas. É muito fácil fugir do caminho traçado quando se tem uma boa (e esfarrapada) desculpa. Justificativas para comer o que não deve não vão faltar, assim como existem milhões de justificativas para você ter uma vida espiritual de “obesidade mórbida”. Não invente “boas desculpas” para fincar raízes na carne e tentar driblar Deus. Isso só fara de você um “obeso mórbido” espiritual.

* * *

Hoje, 13 de fevereiro, retorno à nutricionista para reavaliar minha dieta e alterá-la. Uma vez que já alcancei a meta de peso e que minhas taxas estão todas excelentes, vou passar da alimentação de emagrecimento para a de manutenção. E aí, será vida que segue. De igual modo, quando você se encontra bem em sua espiritualidade, com tudo normalizado, tudo o que precisa fazer é manter saudável seu relacionamento com Deus e com o próximo e, com isso, desfrutar de uma rotina espiritual plena e cheia de vida. O resultado? Paz.

E, acredite, não há quitute ou guloseima que valha a pena viver sem paz.

Portanto, fica aqui minha recomendação: cuide-se. Fuja da obesidade espiritual. Seu corpo e sua alma agradecem.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício Zágari

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